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segunda-feira, maio 29, 2023

Labaredas (de amor, desejo e escárnio) - Volume Completo - Poemas de Adriano Pacianotto

 

LABAREDAS (DE AMOR, DESEJO E ESCÁRNIO)

POEMAS
ADRIANO PACIANOTTO


CAPA & ILUSTRAÇÕES
RAFAEL PIRES


2022






Apresentação

Caro leitor, de antemão alerto que estas páginas podem ser desconfortáveis e terrivelmente verdadeiras. Não caminhe desavisado por estes versos incendiários, pois há fantasmas espreitando o fogo e eu não posso controla-los. Não pise em ossos, não revire escombros e não tente acordar os mortos. Apenas entre com cuidado, pois esta é a lira dos errantes, um submundo venenoso e impregnado de amor, desejo e escárnio. Perdoe-me se eu perturbar sua alma, se incomodar seus sonhos ou colocar seus demônios pra fora. Não há garantia de retorno.

Boa leitura.


quarta-feira, abril 19, 2023

Colagem: Finados



FINADOS
(poema e colagem de Adriano Pacianotto)

Passei para entregar-te rosas
Compartilhar nosso silêncio
Teus olhos eram tão perfeitos
Que jamais eu me esqueço

Vim trazer-te minhas lágrimas
A saudade que guardo no peito
Nunca mais me dirás nada
Nunca mais carinho ou beijos

Deixo flores sobre a tua cova
Com o cheiro dos que já morreram
Com a dor que desabrocha

Aguardo a tua voz tranquila
Que nunca mais trará respostas
Sufoco o pranto e vou embora

quinta-feira, março 16, 2023

Colagem: No Centro Da Cidade Cinza

NO CENTRO DA CIDADE CINZA
(poema e colagem de Adriano Pacianotto)

É sexta-feira
No centro da cidade cinza
E as mudanças de caminho
Desviam-me do teu brilho
E de tudo o que conheço

No rosto o frio e o vento
Entre os prédios, pequenino
Vejo o quanto tudo é imenso
E o quão distante é o recomeço
Que parece-me impossível

Vejo a vida envelhecendo
E o sol não serve abrigo
Entre as torres de cimento
Onde a chuva doutros tempos
Vez ou outra vem comigo


quarta-feira, outubro 14, 2020

Finados



FINADOS
(Adriano Pacianotto)

Passei para entregar-te rosas
Compartilhar nosso silêncio
Teus olhos eram tão perfeitos
Que jamais eu me esqueço

Vim trazer-te minhas lágrimas
A saudade que guardo no peito
Nunca mais me dirás nada 
Nunca mais carinho ou beijos

Deixo flores sobre a tua cova
Com o cheiro dos que já morreram
Com a dor que desabrocha

Aguardo a tua voz tranquila
Que nunca mais trará respostas
Sufoco o pranto e vou embora

quinta-feira, julho 30, 2020

Estatísticas



ESTATÍSTICAS
(Adriano Pacianotto - Julho/2020) 

Sem vela, velório e pompas
Despede-se a alma escura
Na esquife dos excluídos
Só, ante a sepultura

Sem fé vai seguindo à míngua
E esvai-se em tanta amargura
Despacho sanitarista
Em dias de horror e fúria

Sem vela nem sino e pompas
Segue em burocracia astuta
Enquanto o caixão trepida
Na maca enferrujada e bruta

E segue lacrado e lúgubre
À vala coletiva e surda
Enquanto a escavadeira ruge
Qual monstro que semeia tumbas

Enfim silêncio e obituário
Arquivos e estatísticas
Poeira de genocídio
Macabras questões políticas

sexta-feira, julho 17, 2020

Desordeiro de Inferno


Minos - Gustave Doré

DESORDEIRO DO INFERNO
(Adriano Pacianotto)

Ao som da máquina estridente
O musgo cresce nas paredes
E foi brotando lentamente
De uma fresta aparente
Um rubro galho reluzente

E dele enfim nasceu um fruto
Tão vermelho e tão pequeno
Que, sem motivo evidente
Triturei entre os meus dentes
E fui direto pro meu túmulo

Entrei num mundo diferente
Muito escuro e muito quente
E vi um homem demoníaco
Com grandes dentes pontiagudos
E longo rabo de serpente

Olhou-me e disse, contundente: 
- Eu aqui sou teu coveiro
- Mas prefiro ser-te amigo
- Pois também sou delinquente
- E vejo em ti um companheiro

Logo ouvi que foi crescendo
Um chiado insano-intenso
E explicou-me o desordeiro
Que era o êxtase ofegante
Dos vermes devorando os seres

E nada havia para vermos
Além de almas se afogando
Naquela foça borbulhante
Com cheiro de carne podre
E ausência total de anjos

Então corremos feito loucos
Pulamos como dementes
Em busca de vis banquetes
Afim de devorar os tolos
E as vísceras dos inocentes

quinta-feira, junho 04, 2020

Retrocedência



Retrocedência 
(Adriano Pacianotto)

Uma antiga Era que nos assombra
Tempos de generais
Valores chulos 
Que descartamos há muito 
Se transformando em salvação
O ódio venceu porque habita muitos lares e enfraquece corações
Ninguém será poupado dessa miséria 
Que ultrapassa a matéria e corrói as razões
O ódio será cravado nas almas em forma de terror
E o terror, sob as várias facetas que lhe nomeiam
Será pesadelo em todos nós

sexta-feira, maio 22, 2020

Nenhum Cheio de Alvorada



Nenhum Cheiro de Alvorada
(Adriano Pacianotto)

Desta vez não houve nada
Nenhum cheiro de alvorada
Pôr-do-sol sem muita calma
A esperança indo embora
Sem dizer uma palavra

Sem poemas. Tudo cala
A beleza se apagou
A impaciência fez morada
Nem luar e nem mais nada
O coração me abandonou

Sem olhar de noite alta
Nenhuma lágrima brotou
Não houve porre nem ressaca
Nem sequer instante bom
O vazio me dominara

Naqueles tempos de desgraça
Ao menos eu me machucava
Jogava sangue na vidraça
Enquanto via a minha estrada
Com olhares de gigante

Mas agora já nem brasa
Só fuligem se agitando
Se perdendo pela casa
E infelizes sonhos brandos
Que não queimam mais na alma

quinta-feira, maio 14, 2020

No Centro da Cidade Cinza



No Centro da Cidade Cinza
(Adriano Pacianotto)

É sexta-feira
No centro da cidade cinza
E as mudanças de caminho
Desviam-me do teu brilho
E de tudo o que conheço

No rosto o frio e o vento
Entre os prédios, pequenino
Vejo o quanto tudo é imenso
E o quão distante é o recomeço
Que parece-me impossível

Vejo a vida envelhecendo
E o sol não serve abrigo
Entre as torres de cimento
Onde a chuva doutros tempos
Vez ou outra vem comigo

quinta-feira, abril 30, 2020

Nem Luto Nem Memórias



Não tenho a prepotência da verdade
Não me compram as religiões fatídicas
Se sorrio ou choro isso nada importa
Quando enfim chegar a minha hora

Quando o óleo da engrenagem seca
A vida cessa e ninguém chora
Tanto quanto a própria alma
Arrependida do agora

Não tenhas a prepotência da verdade
Não te vendas às religiões fatídicas
Se sorris ou choras isso nada importa
Quando enfim chegar a tua hora

A carne estraga
A madeira estraga
As flores morrem
E o perfume acaba

Profanarão teu túmulo sem nenhum remorso
E sem remorso demolirão tua casa
Nem teu nome restará na placa
Roubarão o bronze e até tuas calças

Pois o mato cresce e o mundo esquece
A terra enterra e o sol se apaga
Nenhuma visita te trará uma prece
Nem suspiro leve de lembrança vaga

Não tenhas a prepotência da homenagem
Ninguém saberá teu nome nem tuas datas
Não lembrarão de ti ao redor da mesa
Em que a tua infância foi amada

Teus pais terão morrido
Também teus filhos e as histórias
Terá teu tempo se esvaído
Não terás luto nem memórias

Não tenho a prepotência da verdade
Não me compram as sanhas políticas
Se reclamo ou clamo isso nada importa
Quando pesarem séculos sobre a minha cova

A seiva dos sonhos terá secado
Todos os sonhos serão esquecidos
E nossos ossos deitarão no ossário
Sem vestígios dos dias vividos

Adriano Pacianotto
21/04/2020
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