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quinta-feira, janeiro 15, 2026

Poesia: Érico Marin, Mateus Novaes e Morpheus Affinito



Três belezuras da poesia independente da minha geração. 

Esses são os seus lançamentos recentes.

Mais que recomendado. 

Tudo coisa linda!


Érico Marin
Lâminas e Lágrimas, Coração e Alma

22

teu bando tua banda
tuas gravações caseiras
tua alegria estranha entre três acordes
tuas idas ao psiquiatra
tuas palhetas lixadas
teus dedos de pontas calejadas
teus versos teus timbres
teu espírito em curto-circuito
tua guitarra de cordas velhas e enferrujadas
e
de
repente
uma corda no corrimão da escada
um nó na garganta
um nó na corda
uma banqueta chutada

a gravidade é implacável

a mãe chegou e levou alguns segundos até entender o que tinha acontecido

jovem demais
e tão longe dos campos dourados das tardes ensolaradas da juventude

a depressão é triste


Mateus Novaes - Protocolo de Manchester
Vermelho V

Um chip em curto-circuito,
Pensamentos, dados em choque
Vírus incógnito,
Realidade virtual em desvio.
Neurônios, fios desencapados,
Sinapses, falhas na conexão,
Emoções, hologramas apaixonados,
Humanos, um software em metamorfose.
A ciência, em rede neural,
Desvenda o código da sapiência,
Com pílulas, nanobots, afinal,
A mente, em nova programação.


Morpheus Affinito - Cinábrio Lunar

***

Pessoa, não adule a tua sombra
Não idolatre o teu reflexo
Não te conduza no desvio da divindade
Espera pelo não:
- Seco e feio!
Mas seja ao menos - uma vez
Não a marcha nem a mancha
Deite-se sobre um estrondoso... Talvez!
E se não houver renúncia em tua fábula
E se não houver fardo em tua tragédia
Ou cisma em tua farsa...
Te conduza pelo teu reflexo
Idolatre o desvio em tua divindade
Não te oculte na sombra do que se diz pessoa
Que jamais te baste a culpa
Que a liberdade não seja um senso escrito.
A responsabilidade é só uma pergunta a alguém!



sexta-feira, novembro 01, 2024

Vale Da Morte (Dentro De Um Sonho)

 

Caminhei pelo vale da morte

Dentro de um sonho, por sete dias,

Alimentando-me de estranhos bichos de olhos grandes

E bebendo a água que pingava,

Viscosa e podre, de gélidos cones flutuantes.

(Adriano Pacianotto)

Sentimento De Reboco Velho

 

Mesma casa
Móveis me encarando
Silêncio de velório
Sentimento de reboco velho
Tristeza de saudade
Cheiro de cemitério
História sem verdade
Ruas de duelo
Morte me encarando
Revirando a carne em versos
Qualquer passo sem futuro
Sorriso acinzentado e mudo
Mundo que se desintegra
Longo dia de silêncio e chumbo
Vida de inferno e raiva
Longa fila de defuntos
Genocídio e covas rasas

(Adriano Pacianotto)

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Colagem: Retrocedência



RETROCEDÊNCIA
(colagem e poema de Adriano Pacianotto) 

Uma antiga Era que nos assombra
Tempos de generais
Valores chulos
Que descartamos há muito
Se transformando em salvação
O ódio venceu porque habita muitos lares e enfraquece corações
Ninguém será poupado dessa miséria
Que ultrapassa a matéria e corrói o espírito
O ódio será cravado nas almas em forma de terror
E o terror, sob as várias facetas que lhe nomeiam
Será pesadelo em todos nós


quarta-feira, janeiro 25, 2023

Labaredas - Resenha por Érico Marin



Labaredas (de amor, desejo e escárnio)
Poemas de Adriano Pacianotto


Capa e ilustrações de Rafael Pires

Resenha por Érico Marin

Em suas “Labaredas (de amor, desejo e escárnio)”, Adriano mantém acesa a chama da poesia que não receia chamar as coisas pelos seus próprios nomes. Em versos intensos e de forte inspiração gótica, as imagens parecem saltar das páginas e atirar sobre o leitor verdades dolorosas, dirigindo seu foco para o que geralmente deixamos escapar no caos urbano.

As “labaredas de amor” tratam do tema com uma morbidez lírica e a sensação de um coração despedaçado, mas que usa sua dor para mostrar o que tem de mais sensível e inspirado. Adriano comete versos de uma profundidade e beleza inquietantes: “E ao ouvir passarinhos/ Corro até a varanda/ E me sento na escadaria/ Assistindo ao derramar das folhas/ E o enferrujar dos meus amores”. 

Várias vezes na leitura dessa seção de suas labaredas, tive a impressão de estar em um cenário típico do Ultrarromantismo, com a onipresença da noite e paisagens decadentes e apocalípticas. “Em dias como este eu não tinha sonhos/ E sempre perdia o que queria tanto/ Às vezes, eu não tinha sono/ E às vezes dormia sobre fel e escombros”.

O livro vez por outra é povoado por versos soltos em negrito, com climas bem urgentes: “Você vai me esquecer em breve/ As mágoas ficarão dormentes/ Os olhares diferentes/ E as palavras bem mais leves”, Adriano escreve em uma sequência desses versos dispersos, narrando com precisão o que acontece ao fim de um relacionamento.

Ainda nessa parte, “Um blues para os drogados” é um flash urbano voltado para os esquecidos e para o que a arquitetura não consegue disfarçar. Em uma avalanche de imagens, o eu lírico admite sua parceria com a decadência e a aceita como parte de sua existência. 

Em “labaredas de desejo”, o tom é mais carnal, mas sem abandonar a morbidez e explorar os recantos mais obscuros do desejo. “Cálices de dor e vinho” ilustra muito bem essa parte: “Mas você, minha querida/ Será minha eterna amiga/ Companheira destemida/ Nesta luta violentíssima/ Que travo com meu mundo oculto/ Muitas vezes te fazendo vítima”.

Adriano também faz do cotidiano um painel poético de metáforas um tanto quanto criativas: “E meu vermicida homeopático/ Cria ninhos de palitos de fósforos/ Enquanto o último quase gole/ Vem sem sonho, sem açúcar e gelado”.

Na terceira e última parte, as “labaredas de escárnio” parecem ter alvo certo, criticando uma certa instituição, relembrando antigos pesadelos da nossa história, atirando na cara de autoridades sua estupidez inconsequente, lançando molotovs poéticos em direção de uma “caravana histérica” e “rebanho de loucos” cego para a verdade que se desenha a sangue e tiros. Nessa parte, ainda há espaço para se escarnecer da cidade e do próprio eu lírico: “Café requentado/ Em copo de vidro/ Tão velho e fodido/ Tão sujo e manchado/ Parece comigo/ Parece passado”.

Enfim, recomendo a leitura dessas chamas poéticas que iluminam e queimam, mas cuidado: essas “Labaredas” podem incinerar as sensibilidades mais delicadas.

Érico Marin


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