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terça-feira, outubro 06, 2026

Quarto Canto de Pavor - Alvaro Alves de Faria



Um poema de Alvaro Alves de Faria, de 1973, para relembrar que o Brasil viveu tempos nefastos e, em pleno 2026, milhões de brasileiros estão dispostos a retornar aos esgotos da barbárie.  

Sigamos na luta contra o fascismo!

 
QUARTO CANTO DE PAVOR
(Alvaro Alves de Faria)

Homens curvados, brancos cabelos,
discursam e bebem água mineral.
Camisas se abraçam em varais escuros.
Casais passam e se contemplam corpos
nas janelas da cidade.

Brancos homens falam do país.
Canivetes se enfiam nos desejos,
motocicletas cortam a rua.
Ouço jipes correndo atrás de sombras.
Perfeita, alucinada, alucinatória
chance,
única testemunha proposital desta hora.
Para onde fugir num dia assim,
neste tempo, neste barco, neste avião?
Onde buscar fronteiras distantes?
Não importa mais
teu romance, teu vestido, teu refrigerante.

Coisas penetram como uma pancada na bôca
e se espetam em estômagos,
uma úlcera suporada.
A trajetória de um instante para outro instante,
a trajetória de uma palavra para outra palavra,
de um poema para outro poema,
o desgosto parnasiano
dos poetas falecidos.
Noites plantam seios diluídos
em livros e filmes.
Sirenes espantam mulheres,
ambulâncias levam feridos
e hospitais recusam.
Agulhas furam aventais e veias.

A autópsia demorará alguns minutos.
Insetos cospem musgos
nos 23 anos de minha idade,
Uma máquina está anotando palavras,
jurados sorriem às senhoras sensibilizadas,
na rápida curiosidade da morte.
Lápides, mortos, moscas
atravessam gargantas e nervos.
Nada a temer, senão a própria vida
em seu fôlego interrompida.
O quarto é uma expectativa.
Pavores povoam sentimentos,
e pulam das bôcas como um atleta doente.

Atenção, senhores ouvintes, vamos informar
em edição extraordinária.

Nossa vida termina
como um fósforo queimado,
e ficamos assim, exaustos de desespero.
Ainda acreditamos em Deus
e somos todos cristãos.
Me descubro
no meio de tantos rostos na praça,
e enquanto permaneço olhando
a plena angústia desta causa,
falo num grito meu poema.

Minha mãe deve estar chorando,
escondida em algum lugar.
Um automóvel oficial segue meu silêncio
como um carro funerário.


(Do livro "4 Cantos de Pavor e Alguns Poemas Desesperados" - Editora Alfa - Omega - 1973)


terça-feira, fevereiro 24, 2026

COLETÂNEA ZONA AUTÔNOMA (POESIA ANTIFASCISTA)

 

Em 2020, mergulhados na pandemia e atormentados pelo negacionismo bolsonarista, ninguém sabia se sobreviveria.

Minha esposa e eu passamos a quarentena em um apartamento bem próximo ao cemitério do bairro. Da janela conseguíamos ver a movimentação de sepultamentos que seguiam madrugada adentro. Holofotes e pessoas em trajes sanitários empurrando caixões sem público foram rotina por longo tempo.

Assim como tantos outros, eu estava escrevendo meus versos, e eles não poderiam fugir à realidade de genocídio e destruição daquele momento. Não havia muita esperança, somente mortos e monstros. 

Foi nesse contexto que o poeta Mateus Novaes me convidou para escrever 3 poemas para a antologia Zona Autônoma, organizada por ele e pelo Jairo Costa, com 21 autores que registraram fielmente aquele episódio sombrio da história. 

A coletânea, lançada pela editora Estranhos Atratores na Primavera de 2021, é uma realização em homenagem aos 10 anos da Revista Mortal, com financiamento do Fundo Municipal de Cultura de Santo André. Com material gráfico impecável, é um registro importantíssimo desse instante grotesco de nossas vidas, para que nunca esqueçamos e para que sempre lutemos. 

De minha autoria foram publicados os poemas "DOI-CODI", "Messias Demoníaco" e "Metrópole". 

Também participaram da edição os autores: Felipe Bigliazzi Dominguez, Douglas Souza, Érica Silva, Fernanda D'Umbra, Guigo Ribeiro, Hélio Neri, Izabel Bueno, Igor Ramos, Jaqueline de Lira, Macário Ohana, Marcelo M. Armadilho, Milton Lopes, Nego Dabes, Peterson Queiroz, Renato Roman, Roger Willian, Tatiana Fernandes, Thami Reiss, Thiago Lourenço Oliveira e Vinícius Cordeiro.

Segue abaixo a belíssima apresentação do livro, escrita pelo Jairo Costa:

Em plena quarentena, em uma manhã pandêmica de 2020, um gato apareceu em nosso portão e nunca mais se foi. Era novo, estava magrinho, parecia que não tinha casa...

Procurando por seu real dono ao longo de vários dias, descobrimos que ele não tinha tão somente uma, mas praticamente todas as casas da vila eram sua morada e ele fazia o que queria, a hora que desse nas patas, sem deuses, donos ou mestres.

Investigando sua origem, perguntando dele para os vizinhos, cada um contava uma aventura diferente sobre o peludo, muito querido por todos.

Em uma casa ele fazia companhia para uma senhora solitária, em outra ele ia comer da melhor ração, noutra ele brincava com uma idosa que está com Alzheimer, em outra residência ele deitava e rolava com as crianças, noutra só dormia...

Ao descobrirmos que ele tinha vários lares e em cada um ganhara um nome, começamos a chamá-lo de gato comunitário e logo depois de gato anarquista e quase instintivamente demos a ele o nome de Constantino, em homenagem ao anarco-mor do ABC paulista.

Descobrimos que ele tinha uma família de irmãos gatunos, mas só Constantino se aventurava por novas casas, explorando novos mundos, reinando absoluto em nossa vila, da qual fez sua zona autônoma felina.

Essa pequena história de traquinagem gatuna serve muito bem como metáfora das ilhas de liberdade que por muitas vezes queremos, sonhamos.



MESSIAS DEMONÍACO

Atacam-nos com fúria insana 
(Intolerância conservadora) 
Lançam-nos à margem 
Na esperança inquisidora 
De que obedeçamos à risca 
Toda a pura ignorância 
Da família tradicional fascista 
E suas igrejas milicianas 

Erguem o Alfarrábio Santo 
Repleto de embuste e sangue 
Apontam-nos como pecadores 
Neste instante de maldade 
Em que o insano é a realidade 
E a fogueira dos pastores arde 
Em busca de opositores 

Deus abençoou a pólvora 
E escolheu o senhor da morte 
Como seu representante 

Ao entortar linhas notórias 
O caminho traçado da bala 
Não atinge a carne nobre 
Segue a velha trajetória 
Contra o preto, o índio, o pobre 

Messias demoníaco 
Com seus cães conspiradores 
Com seus traumas freudianos 
E matilhas de censores 
Defendendo a terra plana 
E o ódio aos amores 
Nessa nova guerra santa 
Que transforma Cristo em arma 
Os juízes em farsantes 
E a Justiça em mera trama


Na LUTA!
Adriano Pacianotto

segunda-feira, maio 29, 2023

Labaredas (de amor, desejo e escárnio) - Volume Completo - Poemas de Adriano Pacianotto

 

LABAREDAS (DE AMOR, DESEJO E ESCÁRNIO)

POEMAS
ADRIANO PACIANOTTO


CAPA & ILUSTRAÇÕES
RAFAEL PIRES


2022






Apresentação

Caro leitor, de antemão alerto que estas páginas podem ser desconfortáveis e terrivelmente verdadeiras. Não caminhe desavisado por estes versos incendiários, pois há fantasmas espreitando o fogo e eu não posso controla-los. Não pise em ossos, não revire escombros e não tente acordar os mortos. Apenas entre com cuidado, pois esta é a lira dos errantes, um submundo venenoso e impregnado de amor, desejo e escárnio. Perdoe-me se eu perturbar sua alma, se incomodar seus sonhos ou colocar seus demônios pra fora. Não há garantia de retorno.

Boa leitura.


quinta-feira, março 02, 2023

Colagem: Rebanho de Loucos



REBANHO DE LOUCOS 
(poema e colagem de Adriano Pacianotto)

Assusta-me imensuravelmente mais
A ignorância e o ódio daqueles
Que como selvagens animais
Desmedem seus dizeres
Imundam-se tais quais
Os mais infelizes seres
Que rastejam nos umbrais
Como cães defendendo alqueires
De escravocratas ancestrais

E na oficina do diabo
Nascem bolhas de holocausto
Junto ao limo dos narcisos
E dos egos consternados
De tantos ressentidos
Loucos desalmados
E sábios de improviso
Esse é o mundo paralelo
Onde todo o amor é extinto
E o horror verde e amarelo
Lança tudo ao precipício

terça-feira, outubro 06, 2020

ELE NÃO! (2022)



ELE NÃO! (2022)
(Adriano Pacianotto)

Navalha na carne
Maldade na mão
Capitão de guarda
Tropa em prontidão

Nas ruas o ódio
O povo sem pão
O circo sem lona
A luta sem chão

Maldade na carne
Navalha na mão
Tropa de guarda
General Mourão

Soldados da pátria
De sangue e exceção
Androides sem alma
Terror da Nação

Tortura na carne
Bíblia na mão
Cachorros de guarda
O bom cidadão

A censura e a farsa
Falsa informação
Que no voto se faça
O poder da razão

Sem borracha na carne
Sem farda e canhão
Que a raiva se acalme
Ele Não! Ele Não!


quinta-feira, julho 11, 2019

Caravana Histérica



Na violenta fé da caravana histérica
A pós-verdade é tão somente enfeite
Adorno chulo para a vida tétrica
Do ser terrível que corrói a mente

Enquanto o mastro solitário e triste
Suporta o peso da bandeira morta
A velha Era vem de arma em riste
E afronta a turba que sucumbe e chora

São Paulo, 10/07/2019


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