Em 2020, mergulhados na pandemia e atormentados pelo negacionismo bolsonarista, ninguém sabia se sobreviveria.
Minha esposa e eu passamos a quarentena em um apartamento bem próximo ao cemitério do bairro. Da janela conseguíamos ver a movimentação de sepultamentos que seguiam madrugada adentro. Holofotes e pessoas em trajes sanitários empurrando caixões sem público foram rotina por longo tempo.
Assim como tantos outros, eu estava escrevendo meus versos, e eles não poderiam fugir à realidade de genocídio e destruição daquele momento. Não havia muita esperança, somente mortos e monstros.
Foi nesse contexto que o poeta Mateus Novaes me convidou para escrever 3 poemas para a antologia Zona Autônoma, organizada por ele e pelo Jairo Costa, com 21 autores que registraram fielmente aquele episódio sombrio da história.
A coletânea, lançada pela editora Estranhos Atratores na Primavera de 2021, é uma realização em homenagem aos 10 anos da Revista Mortal, com financiamento do Fundo Municipal de Cultura de Santo André. Com material gráfico impecável, é um registro importantíssimo desse instante grotesco de nossas vidas, para que nunca esqueçamos e para que sempre lutemos.
De minha autoria foram publicados os poemas "DOI-CODI", "Messias Demoníaco" e "Metrópole".
Também participaram da edição os autores: Felipe Bigliazzi Dominguez, Douglas Souza, Érica Silva, Fernanda D'Umbra, Guigo Ribeiro, Hélio Neri, Izabel Bueno, Igor Ramos, Jaqueline de Lira, Macário Ohana, Marcelo M. Armadilho, Milton Lopes, Nego Dabes, Peterson Queiroz, Renato Roman, Roger Willian, Tatiana Fernandes, Thami Reiss, Thiago Lourenço Oliveira e Vinícius Cordeiro.
Segue abaixo a belíssima apresentação do livro, escrita pelo Jairo Costa:
Em plena quarentena, em uma manhã pandêmica de 2020, um gato apareceu em nosso portão e nunca mais se foi. Era novo, estava magrinho, parecia que não tinha casa...
Procurando por seu real dono ao longo de vários dias, descobrimos que ele não tinha tão somente uma, mas praticamente todas as casas da vila eram sua morada e ele fazia o que queria, a hora que desse nas patas, sem deuses, donos ou mestres.
Investigando sua origem, perguntando dele para os vizinhos, cada um contava uma aventura diferente sobre o peludo, muito querido por todos.
Em uma casa ele fazia companhia para uma senhora solitária, em outra ele ia comer da melhor ração, noutra ele brincava com uma idosa que está com Alzheimer, em outra residência ele deitava e rolava com as crianças, noutra só dormia...
Ao descobrirmos que ele tinha vários lares e em cada um ganhara um nome, começamos a chamá-lo de gato comunitário e logo depois de gato anarquista e quase instintivamente demos a ele o nome de Constantino, em homenagem ao anarco-mor do ABC paulista.
Descobrimos que ele tinha uma família de irmãos gatunos, mas só Constantino se aventurava por novas casas, explorando novos mundos, reinando absoluto em nossa vila, da qual fez sua zona autônoma felina.
Essa pequena história de traquinagem gatuna serve muito bem como metáfora das ilhas de liberdade que por muitas vezes queremos, sonhamos.
Atacam-nos com fúria insana
(Intolerância conservadora)
Lançam-nos à margem
Na esperança inquisidora
De que obedeçamos à risca
Toda a pura ignorância
Da família tradicional fascista
E suas igrejas milicianas
Erguem o Alfarrábio Santo
Repleto de embuste e sangue
Apontam-nos como pecadores
Neste instante de maldade
Em que o insano é a realidade
E a fogueira dos pastores arde
Em busca de opositores
Deus abençoou a pólvora
E escolheu o senhor da morte
Como seu representante
Ao entortar linhas notórias
O caminho traçado da bala
Não atinge a carne nobre
Segue a velha trajetória
Contra o preto, o índio, o pobre
Messias demoníaco
Com seus cães conspiradores
Com seus traumas freudianos
E matilhas de censores
Defendendo a terra plana
E o ódio aos amores
Nessa nova guerra santa
Que transforma Cristo em arma
Os juízes em farsantes
E a Justiça em mera trama
Na LUTA!
Adriano Pacianotto
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