quinta-feira, março 16, 2023

Colagem: No Centro Da Cidade Cinza

NO CENTRO DA CIDADE CINZA
(poema e colagem de Adriano Pacianotto)

É sexta-feira
No centro da cidade cinza
E as mudanças de caminho
Desviam-me do teu brilho
E de tudo o que conheço

No rosto o frio e o vento
Entre os prédios, pequenino
Vejo o quanto tudo é imenso
E o quão distante é o recomeço
Que parece-me impossível

Vejo a vida envelhecendo
E o sol não serve abrigo
Entre as torres de cimento
Onde a chuva doutros tempos
Vez ou outra vem comigo


quinta-feira, março 02, 2023

Colagem: Rebanho de Loucos



REBANHO DE LOUCOS 
(poema e colagem de Adriano Pacianotto)

Assusta-me imensuravelmente mais
A ignorância e o ódio daqueles
Que como selvagens animais
Desmedem seus dizeres
Imundam-se tais quais
Os mais infelizes seres
Que rastejam nos umbrais
Como cães defendendo alqueires
De escravocratas ancestrais

E na oficina do diabo
Nascem bolhas de holocausto
Junto ao limo dos narcisos
E dos egos consternados
De tantos ressentidos
Loucos desalmados
E sábios de improviso
Esse é o mundo paralelo
Onde todo o amor é extinto
E o horror verde e amarelo
Lança tudo ao precipício

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Colagem: Retrocedência



RETROCEDÊNCIA
(colagem e poema de Adriano Pacianotto) 

Uma antiga Era que nos assombra
Tempos de generais
Valores chulos
Que descartamos há muito
Se transformando em salvação
O ódio venceu porque habita muitos lares e enfraquece corações
Ninguém será poupado dessa miséria
Que ultrapassa a matéria e corrói o espírito
O ódio será cravado nas almas em forma de terror
E o terror, sob as várias facetas que lhe nomeiam
Será pesadelo em todos nós


quarta-feira, janeiro 25, 2023

Labaredas - Resenha por Érico Marin



Labaredas (de amor, desejo e escárnio)
Poemas de Adriano Pacianotto


Capa e ilustrações de Rafael Pires

Resenha por Érico Marin

Em suas “Labaredas (de amor, desejo e escárnio)”, Adriano mantém acesa a chama da poesia que não receia chamar as coisas pelos seus próprios nomes. Em versos intensos e de forte inspiração gótica, as imagens parecem saltar das páginas e atirar sobre o leitor verdades dolorosas, dirigindo seu foco para o que geralmente deixamos escapar no caos urbano.

As “labaredas de amor” tratam do tema com uma morbidez lírica e a sensação de um coração despedaçado, mas que usa sua dor para mostrar o que tem de mais sensível e inspirado. Adriano comete versos de uma profundidade e beleza inquietantes: “E ao ouvir passarinhos/ Corro até a varanda/ E me sento na escadaria/ Assistindo ao derramar das folhas/ E o enferrujar dos meus amores”. 

Várias vezes na leitura dessa seção de suas labaredas, tive a impressão de estar em um cenário típico do Ultrarromantismo, com a onipresença da noite e paisagens decadentes e apocalípticas. “Em dias como este eu não tinha sonhos/ E sempre perdia o que queria tanto/ Às vezes, eu não tinha sono/ E às vezes dormia sobre fel e escombros”.

O livro vez por outra é povoado por versos soltos em negrito, com climas bem urgentes: “Você vai me esquecer em breve/ As mágoas ficarão dormentes/ Os olhares diferentes/ E as palavras bem mais leves”, Adriano escreve em uma sequência desses versos dispersos, narrando com precisão o que acontece ao fim de um relacionamento.

Ainda nessa parte, “Um blues para os drogados” é um flash urbano voltado para os esquecidos e para o que a arquitetura não consegue disfarçar. Em uma avalanche de imagens, o eu lírico admite sua parceria com a decadência e a aceita como parte de sua existência. 

Em “labaredas de desejo”, o tom é mais carnal, mas sem abandonar a morbidez e explorar os recantos mais obscuros do desejo. “Cálices de dor e vinho” ilustra muito bem essa parte: “Mas você, minha querida/ Será minha eterna amiga/ Companheira destemida/ Nesta luta violentíssima/ Que travo com meu mundo oculto/ Muitas vezes te fazendo vítima”.

Adriano também faz do cotidiano um painel poético de metáforas um tanto quanto criativas: “E meu vermicida homeopático/ Cria ninhos de palitos de fósforos/ Enquanto o último quase gole/ Vem sem sonho, sem açúcar e gelado”.

Na terceira e última parte, as “labaredas de escárnio” parecem ter alvo certo, criticando uma certa instituição, relembrando antigos pesadelos da nossa história, atirando na cara de autoridades sua estupidez inconsequente, lançando molotovs poéticos em direção de uma “caravana histérica” e “rebanho de loucos” cego para a verdade que se desenha a sangue e tiros. Nessa parte, ainda há espaço para se escarnecer da cidade e do próprio eu lírico: “Café requentado/ Em copo de vidro/ Tão velho e fodido/ Tão sujo e manchado/ Parece comigo/ Parece passado”.

Enfim, recomendo a leitura dessas chamas poéticas que iluminam e queimam, mas cuidado: essas “Labaredas” podem incinerar as sensibilidades mais delicadas.

Érico Marin


segunda-feira, janeiro 16, 2023

Colagem: Metrópole




METRÓPOLE

Minha cidade tem muitas igrejas
Pastores, senhores e velhas bandeiras
Igrejas intrujas sempre mais cheias
Vidas inócuas e muitas besteiras

Minha cidade tem ódio a espreita
Asfalto, fuligem, sangue e truculência
Tem gente que ataca o sujeito que pensa
Tem gente que vive de pura aparência

Minha cidade tem almas desertas
Tem gente sem casa, tem gente sem terra
Tem muitas doenças e muitas sequelas
Pra onde se olhe a esperança se encerra

Minha cidade tem guardas e reis
Amores atônitos cheios de guerra
Mil pecadores na missa das seis
Cheiro de azedo, de sonho que erra

Minha cidade tem cheiro de mijo
De merda, de fome, de febre, de lixo
Minha cidade é esconderijo
De pragas, de crenças, de shoppings e vícios

Minha cidade tem muita notícia
Tem muito drible e pouca ginga
Tem governante integrando milícia
Tem muito Batman e muito Coringa

Minha cidade tropeça no incerto
O mito dos tolos está na vanguarda
O diabo transforma tudo em deserto
E ficamos sem preces nem anjo da guarda

(Adriano Pacianotto)

sexta-feira, outubro 28, 2022

Colagem: DOI-CODI

 

A tortura é o fetiche do conservador. 

Colagem inspirada no poema "DOI-CODI".

DOI-CODI

Nove e trinta
Um grito
Eletricidade e afogamento
E ameaças pavorosas
Aos que pensam livremente
Mas ninguém havia entrado
Para elucidar desterros
Preferiram moer gente

Dez e trinta
Um slogan
Dedos roxos e unhas verdes
Restos num saco preto
E nenhum túmulo aparente
Pois ninguém havia estado
Ali para marcar o enterro
Estavam controlando mentes

Onze e trinta
Uma música
O Hino dos Excludentes
Que deixou um mal sem preço
Mas ninguém havia tentado
Fingir que estava vendo
Estavam na antessala
Do hospício brasileiro

(Adriano Pacianotto)

domingo, outubro 23, 2022

Colagem: A Mesma Farda

 

Colagem - A Mesma Farda - Adriano Pacianotto 

A MESMA FARDA
Atacam
Pela direita
Exércitos burocratas
Donos de tudo
Senhores de nada
Carregam
Nas mãos de mercúrio
O ouro e a praga
Armistício e fome
Sulfúrica chaga
Pertences de furto
Em grandes casas
De olhos de chumbo
E portas cerradas
Nação golpeada
Com adaga astuta
Colarinho branco
Terno e gravata
De forma bruta
À mão armada
Com arma fria
E a mesma farda

(Adriano Pacianotto)


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