quarta-feira, julho 20, 2011

Cramps - Os Reis Do Lixo



Em outubro de 1991 tudo o que eu sabia a respeito do Cramps se resumia a uma fita K7 gravada por um colega mais velho dos tempos de colégio, com o Bad Music For Bad People no lado A, e algumas faixas do A Date With Elvis e gravações ao vivo praticamente inaudíveis no lado B. Lembro que pirei naquilo, era diferente de tudo que eu havia escutado até então, soava para mim como uma mistura de Stooges, Elvis e Alien Sex Fiend. Quando a revista Bizz anunciou o Cramps numa pequena chamada de capa, não tive dúvidas, comprei e engoli a matéria/entrevista do grande André Barcinski, e de amante curioso passei a cultuador fiel da banda mais insana de todos os tempos. Tive o maior prazer em digitar a matéria na íntegra, copiada direto da revista, que guardo com todo cuidado até hoje, 20 anos após sua publicação.

Adriano Pacianotto



CRAMPS - OS REIS DO LIXO

Ser um dos Cramps não é fácil: é preciso gostar de letras estúpidas, rock psicopata, distorção no pico, filmes de terror classe Z e todo tipo de lixo cerebral. Mas só isso não basta: também é preciso ser a melhor banda de psychobilly do planeta durante quinze anos.


Se existe uma coisa boa que esta profissão desgraçada de jornalista permite é a de contato com os ídolos... Numa curta experiência profissional, eu, por exemplo, já tive a felicidade de conversar, pessoalmente ou por telefone, com vários deles: Ozzy, Steve Harris, Lemmy, Brian Setzer, Joey Ramone, Mick Jones, Paul Simonon, Jello Biafra e alguns outros menos votados. Falar com Poison Ivy, no entanto, foi a mais legal de todas.
Por quê? Bom, em primeiro lugar porque os Cramps, junto com os Ramones, os Stooges e o Black Sabbath, são as maiores bandas de rock de todos os tempos. Ninguém me convence do contrário.
Segundo, porque existe em torno dos Cramps uma motivante aura de mistérios e lendas, que beira o culto. Mesmo na imprensa internacional são poucas as matérias feitas com a banda. No Brasil nem se fala.
Foi só no ano passado, quinze anos após sua formação, que os Cramps ganharam sua primeira biografia, The Wild Wild World Of The Cramps, escrita por Ian Johnston. Livro obrigatório.
 Comigo, a banda fez jus à imagem enigmática e misteriosa – mas pelas razões erradas. Foi a entrevista mais difícil de conseguir da minha vida. Não que Poison seja uma dessa estrelas mal-humoradas, muito pelo contrário.
O problema foi burocrático. Ligando para a gravadora da banda, atendia sempre a secretária eletrônica: “Este telefone não pertence mais à Enigma. A gravadora faliu. Pedimos desculpas”.
Foram dois meses atrás dos desgraçados. Um belo dia, um companheiro de profissão, repórter da Rolling Stone, deu a dica: “Parece que os Cramps assinaram com a I.R.S.”.  Palpite certo. A partir daí foi mole: novo telefonema, entrevista pedida, entrevista marcada.
Na hora combinada, o telefone toca em alguma colina de Hollywood. Uma voz suave e gentil responde. Era Poison Ivy...

Foi difícil falar com vocês, estou tentando há um tempão...
Foi porque a gravadora faliu. Ficamos sem assessoria de imprensa, sem nada. Mas agora já está tudo resolvido, assinamos com a I.R.S. . Já trabalhamos com eles antes nos discos Psychedelic Jungle e Bad Music For Bad People.

Vocês estavam fazendo lançamento de Stay Sick?
Sim. Estávamos em turnê quando soubemos do problema com a gravadora.

Parece que esse foi o disco de vocês que mais vendeu...
Sim, é verdade. Foi o primeiro disco que lançamos por uma gravadora grande. Todos os nossos discos anteriores saíram por selos pequenos, que tinha problemas de distribuição. Stay Sick vendeu bem porque foi bem distribuído... e porque é nosso melhor disco.

É um disco muito pesado e violento...
Era essa a nossa intenção, fazer o disco mais violento e doente possível. Stay Sick é perfeito.Foi a primeira vez que conseguimos soar em vinil como soamos ao vivo.

O nome do disco, Stay Sick (Mantenha-se Doente) é uma filosofia de vida dos Cramps?
(Rindo) É lógico. Considerando que a maioria dos humanos se julga normal, preferimos ser anormais. Stay Sick significa “não seja normal, mantenha seu bom humor, seja diferente dessa humanidade chata e conservadora”.

Os Cramps são muito influenciados pela cultura trash, como filmes B e quadrinhos de terror. Como começou essa adoração pelo lixo cultural?
Em primeiro lugar o que nos influencia é o humor negro. Tudo que fazemos é relacionado a ele. Desde adolescentes gostamos de filmes de baixo orçamento e de terror. Nada melhor que um orçamento reduzido para incentivar a criatividade. Quando você assiste a um filme de terror dos anos 50, sabe que as pessoas que o fizeram são de verdade, entende? Não me interesso por efeitos especiais perfeitos e produções caras. Isso desumaniza a arte.

Se os Cramps fossem um filme em vez de uma banda, que filme seriam?
Meu Deus, uma pergunta difícil. Deixa eu pensar... Acho que seríamos uma mistura de Faster Pussycat Kill! Kill! Com os filmes de Herschell Gordon Lewis. Teria também um pouco de Evil Dead 2, de Sam Raimi, e de um filme chamado The World’s Greatest Sinner, sobre um homem que larga seu emprego, muda seu nome para “God” (Deus) e vira astro de rock. (Nota: Faster Pussycat Kill! Kill! É um filme de Russ Meyer sobre um grupo de mulheres que barbarizam com seus carros em pleno deserto. Já Herschell Gordon Lewis é considerado o pai do estilo “sangue e tripas”, o mais violento do terror. Em 63, filmou Blood Feast, filme precursor do gênero.)

E seus ídolos musicais?
Os músicos que mais me influenciaram foram músicos da década de 50, como Link Wray e Duane Eddy. Ouvi muito também os guitarristas de rockabilly e sei de cor o catálogo da Sun. O rhythm & blues inglês dos anos 60 também foi uma grande influência, até ficar progressivo demais. Depois dessa onda progressiva, pouca coisa chamou minha atenção: Stooges, New York Dolls, T-Rex e Ramones.

E as bandas de surf music, tipo Trashmen e Surfaris?
Sem dúvida. Os trashmen são uma das maiores bandas da história. Gravamos “Surfin’Bird” no lado B do nosso primeiro compacto. Acho que é a maior música jamais feita. É energia pura! Dá vontade de sair quebrando tudo (risos)!

Alguma banda nova te impressionou nos últimos tempos?
Para falar a verdade, não escuto muita coisa nova. Gosto do Sonic Youth, do B52’s e do último disco do Iggy Pop (Brick By Brick), que é outro ídolo nosso. Ah, sim! Me Lembrei de uma boa banda nova, o Flat Duo Jets, que tem aberto alguns shows para a gente.

E as letras dos Cramps? São, digamos, “ousadas”...
(Rindo) Acho nossas letras muito sexy e imaginativas. Lembram as letras de alguns bluesmen, como Howlin’Wolf.

Os Cramps sempre foram influenciados pelo psicodelismo. Hoje muitas bandas, de estilos que vão do heavy à dance, se dizem influenciadas também...
Isso tudo me parece uma grande armação. Veja o caso dessas bandas de Manchester: põem uma batidinha dance aqui, um vocalzinho sussurrado ali e vendem como se fosse psicodélico. Sou uma especialista em psicodelia, por isso sei o quanto é artificial e desonesto. Sabe, com tanta banda louca por aí, ouvir essas coisas? Com certeza não é o que eu gostaria de ouvir se estivesse chapada (risos)... 

O que você quis dizer com “especialista em psicodelia”?
(Rindo) Digamos que são anos de experiência. Sabe, quando eu estou tocando, entro em transe psicodélico, tenho visões e coisas desse tipo (mais risos)...

Você e Lux vivem há dez anos em Los Angeles, que é o paraíso dos poseurs. Como é ser vizinha do Guns N’Roses e do Skid Row?
Moramos aqui porque é bem tranquilo. Sobre essas bandas que você citou, não gosto. Eles ficam posando de roqueiros maus e drogados, mas são uns conservadores, racistas e pró-governo. 

Por falar em governo, qual é a posição política dos Cramps?
Sempre evitamos letras sobre política e coisas desse tipo. Rock’n’roll para nós é só diversão. Para as bandas inglesas contemporâneas nossas, tipo Clash e Sex Pistols, fazia sentido falar sobre isso. Eles vinham de um país frio e repressor. Enquanto eles estavam desempregados e passando fome, nós estávamos vendo filmes de terror e lendo gibis...

Você acredita em movimentos do tipo Live Aid?
Não. Acredito na bondade humana, mas acredito também na esperteza dos empresários, que usam esses eventos só para se promover.

Mudando um pouco de assunto: se você fosse para uma ilha deserta e só pudesse levar cinco discos, quais você levaria?
Só cinco? Vamos ver... Acho que levaria uma coletânea do Link Wray, o álbum ao vivo dos Trashmen (Live 65-67) e a caixa de blues da Sun, com músicas de Howlin’Wolf e Junior Parker. Levaria também um disco dos Stooges, talvez o Funhouse, que é o meu preferido. Ah, não poderia deixar de fora a Korla Candid. Você não conhece? É uma organista que faz um som muito louco, ótimo para se ouvir olhando o pôr-do-sol...

Pôr-do-sol? Então no fundo você é uma romântica?
(Rindo) Às vezes. Sabe, Lux e eu estamos numa ótima fase, realmente apaixonados um pelo outro. Temos esta bela casa, que nós adoramos, onde ficamos assistindo a filmes e ouvindo discos. Tem sido ótimo.

A.B.



Ser um Cramp não é fácil. Ser um Cramp significa gostar de lixo, amar coisas que a maioria das pessoas acha repulsiva e ridícula. É necessário amar os filmes classe Z, desses de orçamento reduzido e efeitos especiais de quinta categoria. É necessário adorar o rock’n’roll cru e básico do rockabilly. É preciso gostar de coisas que não fazem sentido e de letras que não dizem nada de útil para a humanidade.
Pessoas com todas essas qualidades são raras. Um dia, em 72, duas pessoas dessas se encontraram. O resultado foram os Cramps.
Tudo começou em Akron, Ohio, numa das zonas industriais consideradas as mais poluídas dos EUA. O jovem Erik Lee Purkhiser, filho de uma típica família de classe média, passava seu tempo lendo as HQs de terror Tales From The Crypt, ouvindo o programa de rádio da Mad Daddy e assistindo na TV ao show de horrores de Ghoulardi.

Um dia, com medo de ser convocado para a guerra do Vietnã, Erik resolveu se mandar de Akron. Pegou seu carro e foi para Sacramento, na Califórnia. Lá foi hippie e andou metido em zen-budismo.
Um dia deu carona na estrada para uma menina, Kristy Marlana Wallace. Foi amo à primeira vista. Ao contrário de Eduardo e Mônica, Erik e Kristy gostavam das mesmas coisas: filmes de terror, quadrinhos sanguinolentos e muito rockabilly.
Erik voltou para Ohio, levando na carona sua nova namorada. Um ano e meio depois, já autobatizados de Lux Interior e Poison Ivy Rorschach, se mudaram para Nova York, com a idéia de formar uma banda.
Em NY conheceram as bandas do underground: Ramones, Dead Boys, Heartbreakers, Television, Suicide e Blondie. Lux arrumou emprego numa loja de discos. Lá encontrou o estranhíssimo Brian Gregory, um fanático pelos Stooges.
A banda estava precisando de um baixista, já que Ivy estava aprendendo a tocar guitarra. Gregory insistiu em também tocar guitarra. Assim, os Cramps ficaram com dois guitarristas e sem baixista. Permaneceram sem baixista até 86.
A estreia foi em novembro de 76, no Dia de Finados, abrindo um show do Suicide no CBGB.
A baterista era Miriam Linna, velha amiga de Detroit. Em julho de 78, Miriam largou a banda e foi substituída por Nick Knox (Nicholas George Stepanhoff).
Em 78 lançam seu primeiro single, com as covers de “Surfin’ Bird”, dos Trashmen, e “The Way I Walk”, de Jack Scott. O primeiro LP só viria em 80, Songs The Lord Taught Us. Em maio desse mesmo ano, Brian Gregory simplesmente some. Sua saída dá início a um rodízio quase interminável de guitarristas. Julien Griensnacht, Kid Congo Powers, Ike Knox (primo de Nick) e Clint Mort não funcionaram.
No álbum A Date With Elvis, de 86, a banda usou pela primeira vez um baixo em uma gravação, com Poison Ivy fazendo às vezes de guitarrista e baixista. O problema acabaria com a entrada de Candy Del Mar, que assumiu o baixo dos Cramps e estabilizou a formação da banda.
Estes últimos anos foram ótimos para os Cramps. Apesar do problema das constantes trocas de gravadora, viram seu público crescer. No ano passado, fizeram o melhor disco do planeta (Stay Sick) e fizeram sua maior excursão, tocando para quarenta mil pessoas como a atração principal do Festival de Reading, na Inglaterra.
Os Cramps são uma das poucas bandas da história do rock que pode se orgulhar de realmente ter criado um estilo. Ao fundir os riffs rockabilly e surf de uma banda como os Ventures com a psicodelia e o peso de um Stooges, a banda criou o “psychobilly”, ou “rockabilly voodoo”. Sua música suja, agressiva e bem-humorada é hoje uma unanimidade, capaz de agradar de góticos a rockabillies, passando por punks e headbangers.
Pelas letras, dá para se ter uma idéia da filosofia “diversão a qualquer custo” dos Cramps.
Eles esnobam a arte dita séria (“Eu não sei nada de arte/Mas sei do que eu gosto”, em “I Ain’t Nuthin’ But A Gorehound”, 83), abominam o messianismo do rock (“Eu gosto do rock’n’roll maldito/Aquele que não salva almas”, “God Damn Rock’N’Roll”, 90) e fazem questão de se distinguir das pessoas ditas normais (“As pessoas não gostam de mim/O porquê eu não sei”, em “People Ain’t No Good”, de 86).
O show dos caras, quem viu garante, é matador. Poison Ivy, ao lado direito do público, mascando chiclete e soltando aquela microfonia que faz o Jesus And Mary Chain parecer a Banda de Pífaros de Caruaru. À esquerda, Candy detonando o baixo trovejante. Ao fundo, Nick Knox, com cara de quem está permanentemente de saco cheio, segura a batida rockabilly.
No centro, o mestre-de-cerimônias, Lux, só de tanguinha e sapatos de salto alto, fazendo gargarejo com um garrafa de vinho barato e cuspindo de volta no público, se arrastando feito uma lacraia pelo palco, com metade do microfone enfiado na boca. De arrepiar.
A nós, pobres brasileiros, resta assistir aos vídeoas, ouvir os discos até furar e torcer por uma miraculosa aparição nesta terra abençoada por Belzebu. Num país onde a EMI-Odeon divulga na imprensa que vai lançar o Stay Sick e depois simplesmente desiste, tudo é possível.

ANDRÉ BARCINSKI




TERROR, TORTURA E PSICOSE – O ESTRANHO MUNDO DOS CRAMPS

O guitarrista Brian Gregory era o único membro do Cramps realmente ligado em magia negra. Ele costumava usar um colar feito de ossos, em que pendurava pequenos recipientes com terra, recolhida dos cemitérios das cidades onde a banda passava.

Em 84, Lux e Poison foram passar as férias numa fazenda em Plainfield, no Wisconsin. Vinte e sete anos antes, mais precisamente em 17 de novembro de 1957, no mesmo local, Ed Gen foi descoberto pela polícia. Ele havia matado várias pessoas, entre elas a mãe do xerife da cidade, e arrancado suas peles para forrar os móveis de sua casa. A história de Gein inspirou filmes como Psicose (1960), de Hitchcock, e O Massacre da Serra Elétrica (1973), de Tobe Hooper, além de músicas como “Deadskin Mask”, do Slayer. A casa onde Gein “trabalhou” em suas vítimas foi queimada pelos moradores de Plainfield, mas Lux e Poison conseguiram levar como recordação um pedaço da parede da casa, pesando 25 quilos, que guardam até hoje. (Internado em um sanatório, Gein morreu em 26 de julho de 84.)

O logotipo do Cramps é inspirado no de “Tales From The Crypt”, famosa série de quadrinhos de terror dos anos 50. Lux tem a coleção completa.

O fã-clube do Cramps na Inglaterra foi fundado em 79. Um dos fundadores era um jovem chamado Steven Morrissey, que depois ficaria famoso como líder dos Smiths.

Durante alguns meses do ano de 85, Lux se correspondeu quase que diariamente e visitou John Wayne Gacy. Mais conhecido pelo apelido de “Killer Clown”, Gacy estava preso, condenado à morte por torturar, sodomizar e matar 33 jovens. Na prisão, Gacy se dedicava a pintar quadros retratando “grandes artistas da humanidade”, e dedicou uma série inteira à figura de Lux Interior.

No verão de 78, o Cramps fez um show para os internos do Napa State Mental Hospital, um manicômio perto de San Francisco. O show foi gravado pela Target Video. Os loucos (?) sobem no palco, cantam e dançam com Lux, que inicia o show assim: “Algumas pessoas me falaram que vocês eram loucos, mas parecem normais para mim”.

Todas essas histórias e muitas mais estão no livro The Wild Wild World Of The Crampas  (1990), de Ian Johnston, primeira biografia da banda.  

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